14 de maio de 1934

     O dia começou com a grata surpresa do reaparecimento do Dr. Campbell, que chegou nadando e coberto de algas. Felizes de vê-lo vivo, içamo-lo ao navio, ansiosos por saber como se deu sua fuga, mas, mesmo depois de ter tempo para recobrar o fôlego, ele se ateve a dizer apenas algumas palavras, sobre um som de flauta que o atraiu a uma galé, onde ele foi perseguido por Kalimanos e teve um - aparentemente terrível demais para ser detalhado - encontro com uma criatura com tentáculos.

Mesmo tendo escapado por um milagre, o doutor parecia acreditar que tudo estava perdido, que esse era o inferno e que jamais sairíamos dele. Mas tratei de convencê-lo de que, pelo contrário, estávamos mais perto do que nunca de deixar este lugar para sempre, pois agora tínhamos um plano: encontrar a tempestade e repetir o fenômeno que nos trouxe até aqui.

Mostrei a ele o mapa atualizado com o que vi na cúpula submarina e as informações obtidas por Próspero, cuja situação expliquei ao doutor, e ele não se opôs ao plano de entregá-lo à sua tripulação, o que fizemos em seguida.

Aproximei-me do navio de cruzeiro no barco a remo, acompanhado de Harry Johnson e do pobre Próspero, que nesse ponto parecia resignado e já não falava mais nada. Seu retorno são e salvo foi muito comemorado pelo seu grupo, que honrou com a palavra e nos entregou boa quantidade de comida enlatada como recompensa. Mas a alegria deles era diretamente proporcional ao ódio nos olhos de Próspero, que eu mal ousava encarar. Quando nos despedíamos, ele me dirigiu suas últimas palavras de desprezo: "Vocês venderam suas almas para salvar suas vidas.".



De volta à Bluebell seguimos viagem rumo ao local onde tínhamos esperança de encontrar a tempestade e foi apenas quando o sol começava a se por que tive coragem de me virar novamente na direção do navio de cruzeiro. Gostaria de não tê-lo feito, pois, mesmo longe, foi possível avistar nada menos que sete navios-fortaleza Kalimanos cercando-o. Que Deus proteja essas almas.

Depois que a noite chegou não demorou muito para começarmos a sentir o mar mais agitado e logo atravessamos o que parecia uma parede de água, entrando na tempestade que, como da última vez, ameaçava naufragar-nos. Mas dessa vez estávamos preparados para ela, seguindo em frente com habilidade e determinação.

Finalmente, depois de um tempo que não sei determinar, saímos da tempestade para um glorioso e familiar céu azul, sentindo novamente o calor do sol e respirando aliviados como se acordássemos de um pesadelo. No horizonte, uma pequena ilha.

 Aos gritos, Jacques anunciava que reconhecia-a como Nonsuch Island. De fato, o Dr. William Beebe nos aguardava na praia e, assim que chegamos perto o suficiente, perguntou: "Por que demoraram tanto?".




13 de maio de 1934

Dei algumas ideias ao habilidoso Harry Johnson e ele construiu, na cozinha, uma engenhoca para condensar o vapor da água do mar fervida, provendo água livre de sal e resolvendo ao menos uma das preocupações de Jacques.

Depois, contei aos meus companheiros tudo que vi com a Batisfera, incluindo a fascinante cidade submersa, na esperança de que eles concordassem em navegar naquela direção para um novo mergulho exploratório, mas eles fizeram pouco caso, preferindo procurar os Kalimanos.

Navegamos então em direção à estranha galé onde supostamente encontraríamos os misteriosos Kalimanos. No caminho, Harry decidiu explorar outro navio de cruzeiro próximo e partiu em um barco a remo, enquanto outro levava a mim, o Dr. Petrov e o Dr. Ulysses até onde a galé estava ancorada, uma "ilha" formada por algas emaranhadas e solidificadas.



Enquanto remávamos até lá, notamos três figuras andando na ilha, em direção a um enorme e avariado navio negro cujo casco parece, estranhamente, não ser feito de madeira, mas de algum mineral desconhecido.

Duas delas usavam vestes brancas semelhantes às que os desconhecidos do dia anterior vestiam e, entre eles, conduziam uma pessoa com vestes escuras que parecia magra e cansada e andava como se estivesse em transe. A isso o Dr. Petrov teve uma estranha reação, relatando que as figuras de branco não pareciam humanas, tendo bocas largas, olhos amarelos e pele esverdeada. Mas ao Dr. Campbell e a mim elas pareciam perfeitamente normais, embora não fosse possível discernir bem suas feições daquela distância.

Cogitamos abordar as pessoas, dado que o Dr. Campbell estava ansioso para travar contato com elas, mas o Dr. Petrov mostrou-se decididamente contra, então concordamos em rumar diretamente para a galé, por falta de palavra melhor, pois aquele talvez seja o mais estranho dos barcos que encontramos até ali.

Ele era muito alto e parecia feito de uma madeira escura, mas não era possível ver nenhuma divisão entre uma tábua e outra, como se a embarcação inteira tivesse sido entalhada em um único e monumental bloco de madeira. Havia uma cabine iluminada que mais parecia um alto edifício, com o mastro despontando no topo, além de uma torre muito alta, onde era possível ver mais uma figura de branco, que o Dr. Petrov também enxergava com um "homem-peixe". 

Ele não parecia ter nos avistado ainda e decidimos chegar de forma discreta. O Dr. Petrov juntou um grande monte de algas para cobrir-nos e ao barco, e remamos cautelosamente em direção à porção da ilha que se conectava à galé. Mas, ao chegar no local, o Dr. Campbell avistou duas pessoas e decidiu se dirigir a elas, deixando o Dr. Petrov e eu escondidos no barco.

Sem poder ouvir o que conversavam, observei de longe até que um deles agarrou o Dr. Campell, que gritou para que fugíssemos, enquanto o outro apontava para ele algum tipo de objeto metálico que, à primeira vista, achei ser um castiçal. Sem titubear, pulei do barco e corri em sua direção, gritando para que deixassem meu colega em paz.

Mas, para meu completo horror, o que eu acreditei serem duas pessoas eram na verdade criaturas bestiais, com bocas largas e olhos esbugalhados como o de peixes ou sapos, além de uma pele escamosa e mãos - ou patas? - com membranas. E o que parecia ser um castiçal era um tipo de cimitarra, que a criatura apontou para mim.


Injetado de adrenalina, meu instinto de luta ou fuga aflorou e decidi lutar, acertando um jab no monstro, que reagiu com a rapidez de uma cobra pisada na grama e acertou-me com o sabre, cortando-me a carne dolorosamente. Segundos depois, a criatura caiu para trás com um buraco sangrento onde antes havia um olho, graças a um tiro certeiro do Dr. Petrov, que se aproximou sem ser visto.

Sem perder tempo, ataquei o outro Kalimano, libertando o Dr. Campbell, que fugiu desabalado. Mas outros três já haviam surgindo, certamente alertados pelo som do tiro, e o Dr. Petrov e eu corremos de volta ao barco a remo. Sem ver sinal do Dr. Campbell, embarcamos e remamos sofregamente à toda velocidade até retornar à Bluebell.

Após explicar a ausência do Dr. Campbell ao resto da tripulação, notamos a presença de um desconhecido, que Harry Johnson nos apresentou como "Próspero", o líder dos passageiros do grande navio de cruzeiro que ele decidiu explorar. Segundo ele, o grupo numeroso está neste local há mais tempo que nós e já teve uma série de enfrentamentos com as criaturas que nos atacaram.

Mas, enquanto eles barricam-se no navio, tentando apenas sobreviver, Próspero é da opinião de que é preciso procurar uma maneira de sair daquele local, o que levou a um desentendimento entre ele e o restante do grupo, fazendo com que ele os abandonasse a partisse em uma exploração solitária.

A busca certamente rendeu frutos, pois, com as informações que reuniu, ele concluiu que a única maneira de sair dali é através da mesma tempestade que quase nos naufragou e que foi marcada pelo fenômeno do fogo de Santelmo. Ele acredita que, em algum lugar daquele maldito Mar de Sargaços, há uma área que reúne as condições climáticas ideais para essa tempestade, mas ainda não foi capaz de localizá-la, principalmente sem um barco navegável.

Harry nos contou que encontrou Próspero na floresta de algas, aparentando estar meio louco, e que ele só concordou em nos ajudar com suas informações em troca de embarcar na Bluebell e sair em busca da tempestade, e de não ser levado de volta para o navio de cruzeiro, que pediu a ajuda de Harry para encontrá-lo, prometendo mantimentos em troca.

Mais tarde, quando os outros preparavam-se para dormir, vi Próspero observando a luz na água e decidi fazer um novo mergulho com a Batisfera, para encontrar a fonte da luz. Mas foi preciso barganhar um alto preço em troca da ajuda do capitão Billy e de Jacques na empreitada, que só aceitei pagar porque senti que encontraria respostas muito necessárias na cidade submersa.

Próspero mergulhou comigo na Batisfera, ficando igualmente fascinado e horrorizado pelas espécies que nadavam à nossa volta enquanto à esfera descia. Quando finalmente chegamos às ruínas, vesti um pesado escafandro e saí da Batisfera, dirigindo-me ao templo, de onde a forte luz amarelo-esverdeada emanava.



Subi a escadaria com a estranha sensação de não ser apenas um explorador marítimo, mas um viajante do tempo, pisando degraus assentados por construtores de uma civilização antiga e utilizados por sabe-se lá quais tipos de peregrinos. Mas, ao me aproximar das gigantescas portas duplas, percebi que eu não era o primeiro homem da era moderna a chegar ali.

Outro escafandro, aparentemente vazio, estava de pé entre as portas, como se o homem dentro dele tivesse desaparecido no instante em que entrava no templo. Temendo o mesmo destino, contrariei a enorme vontade de ver o interior do edifício e dei meia volta, dirigindo-me a uma grande construção abobada.

Lá, sob a alta cúpula, vi símbolos de uma língua desconhecida, constelações que pareciam corresponder ao céu que víamos à noite e um detalhado mapa do mar de sargaços. Examinei minunciosamente cada registro, concentrando-me ao máximo para gravar tudo na memória, até ver uma silhueta contra a luz nas portas do templo.

A figura veio em minha direção e escondi-me atrás de uma das colunas em estilo grego da construção e, quando ela se aproximou, vi, em uma fração de segundos, o rosto de um jovem com pequenas asas atrás das orelhas, que depois pareceu ser um peixe, e depois "absorveu" toda a luz que vinha do templo e tornou-se ele próprio a fonte da luz.

Esgueirei-me até a saída atrás de mim e, com toda a furtividade permitida pelo pesado escafandro, contornei um velho submarino enferrujado da grande guerra - de onde o escafandro vazio deve ter saído -, e voltei para a Batisfera, onde Próspero apertava alucinadamente todos os botões, tentando fazê-la emergir, aterrorizado como estava pelo ser de luz. O desgraçado me deixaria para trás!

Isso certamente diminuiu minha culpa na traição que se seguiu, quando subimos à bordo da Blubell e o capitão Billy e Jacques cobraram seu preço na barganha, amarrando próspero como um salame, a ser entregue no navio de cruzeiro em troca de comida.

Mesmo tendo encontrado Sono em pessoa, será difícil dormir, não apenas pelo peso na consciência, mas pelos gritos e maldições que o homem ainda profere, amarrado no porão.

12 de maio de 1934

Navegamos durante quase todo o dia até chegarmos à região central indicada no nosso mapa do Mar de Sargaços, ou como quer que se chame este lugar. Sob a luz do crepúsculo ainda era possível avisar meia dúzia de embarcações de aspecto fantasmagórico nos canais entre os bancos de algas.

A isso seguiu-se um moroso debate sobre investigar ou não os navios, por qual começar caso o fizéssemos e a escassez de comida e água potável. Chateei-me com a indolência das decisões e o excesso de zelo. Oras, para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve! Todas as respostas sobre este terrível País das Maravilhas estavam à nossa frente, mas perdíamos tempo precioso de luz solar hesitando em frente à toca do coelho.

Depois do que pareceram horas, finalmente dividimo-nos em dois botes para investigar as embarcações mais próximas, conquanto o Dr. Petrov tenha preferido permanecer na Bluebell, receoso de deixar sozinha a instável tripulação (o capitão Billy padece de forte cefaleia e Mike parece aterrorizado pelo local em que estamos, recusando-se a deixar o porão).


Enquanto o Sr. Johnson remava na direção de um grande navio de cruzeiro, o Dr. Campbell e eu subimos à bordo de um estranho navio de guerra identificado como SMS Panther, equipado com metralhadoras montadas que pareciam mais sofisticadas do que as que vi em fotografias da Grande Guerra.

No convés, encontramos os cadáveres desfigurados por queimaduras de quatro soldados. Um deles usava um elegante uniforme preto, com um quepe de policial e uma braçadeira vermelha exibindo um símbolo que, se não me engano, é o do partido do chanceler alemão, Adolf Hitler. Lembro de ver uma bandeira com este símbolo no The New York Times no ano passado, em um elogioso artigo sobre o envio de anarquistas, socialistas e comunistas a campos de concentração após o incêndio do Reichstag.

Além de uma pistola Luger, o oficial nazista tinha consigo também um diário, onde ele relatou terríveis batalhas no Atlântico. Mas o que me surpreendeu foram as datas, todas posteriores a 1939. Um erro, ou algum tipo de código? Encontramos outros documentos explorando o interior do navio e, para minha total estupefação, todos traziam datas futuras. Esse fato, aliado ao aspecto estranho do navio, me fez aventar a absurda hipótese de que o encouraçado alemão tenha de alguma forma viajado no tempo até encalhar neste maldito ponto do triângulo das Bermudas.

E se isso for verdade, o que dizer dos relatos de uma segunda guerra em escala global, lutada com armas de potencial destrutivo nunca antes visto? Meu Deus, a primeira quase nos destruiu e a segunda parece muitíssimo mais letal. Se é isso que o futuro nos reserva, será que quero mesmo voltar para casa?



Ainda estava absorto nesse pensamento deprimente enquanto remávamos de volta à Bluebell e avistamos a luz de uma fogueira na margem da floresta de algas ao redor da qual os navios abandonados estão dispostos. Este local parece formado pelos destroços de dúzias de embarcações dominadas pelas algas, que se envolveram na estrutura de tal maneira que é impossível identificar onde um navio termina e outro começa. Elas sobem pelos vários mastros como trepadeiras, dando ao local o aspecto de uma verdadeira floresta.

Quase no momento em que avistei a fogueira, comecei a escutar a melodia da minha antiga caixinha de música, afastando os pensamentos sombrios. Aproximando-nos, vimos um homem e uma mulher iluminados pelo fogo. Eles vestiam estranhas túnicas brancas sobre calças curtas e assavam um enorme peixe. Acenei e gritei uma saudação, ao que eles responderam amigavelmente.

O homem tinha cerca de 50 anos, cabelos grisalhos e feições que me eram, de alguma forma, familiares. A mulher tinha longos cabelos ruivos. Pareciam plenamente saudáveis e suas maneiras eram relaxadas e satisfeitas, nada parecidas com o que se esperaria de náufragos sobrevivendo em um local tão ermo. Eram ambos americanos, pelo que nos contaram, e tinham chegado ali há muito tempo. Perguntei se havia uma maneira de sair do Mar de Sargaços e eles nos desencorajaram, convidando-nos a ficar, prometendo que aquele local oferecia um contentamento pleno. Confesso que fiquei tentado, lembrando da guerra que nos aguardava em casa e vendo o quanto eles pareciam felizes naquele lugar isolado.

Eles falaram também de outros habitantes do local, os Kalimanos, que parecem ser o povo nativo. Eles supostamente detém grande conhecimento e, se alguém sabe como este lugar funciona, são eles. Fomos informados de que os encontraríamos em uma das embarcações menores, a que parecia ter uma grande torre no centro. O Dr. Campbell teve a precaução de perguntar se esses Kalimanos não eram perigosos, pois encontramos cadáveres no navio, o que eles negaram, explicando que os mortos eram vítimas da guerra lá fora. Agradecemos pela informação e nos despedimos.

De volta à Bluebell, ouvimos o relato do Sr. Johnson sobre o navio de cruzeiro da era vitoriana, onde ele encontrou mais mortos, desta vez praticamente fossilizados e infestados de algas, um mapa de estrelas desenhado de forma apressada e uma arma bastante oxidada pela exposição ao sal marinho, como a Luger que encontrei. O Dr. Campbell fez reparos nas duas, e entreguei a minha ao Dr. Petrov, que disse ter experiência no manuseio. Depois, como já estava escuro demais para navegar a Bluebell e tarde demais para bater à porta de desconhecidos, decidimos esperar pelo dia seguinte.

Com os nervos abalados pelos acontecimentos recentes, o Dr. Petrov e o Sr. Johnson travaram conversa com o Dr. Campbell, que se tornou uma espécie de alienista do desaventuroso grupo. Mesmo estando próximo, pouca atenção dei às suas palavras de conforto, porque notei uma interessante luminosidade que oscilava entre amarelada e esverdeada na água ao nosso redor, se estendendo em um raio de mais de 200 metros. Conjecturei sobre a presença de animais marinhos dotados de bioluminescência, semelhante à que já foi registrada em plânctons e algumas espécies de algas.

Muito intrigado, decidi que era hora de estrear a fabulosa Batisfera que a Bluebell esteve carregando em seu ventre todo esse tempo. Enquanto os demais recolhiam-se para descansar, desci ao porão e encontrei Jacques, a quem pedi auxílio na empreitada, o que demandou uma boa dose de convencimento.

Finalmente, tremendo de expectativa, acomodei-me no exíguo interior da máquina e Jacques a fez submergir no mar. Imediatamente, os faróis electricos da Batisfera iluminaram centenas de peixes nadando próximos à superfície, espécies comuns no Atlântico. Mas, à medida em que a esfera atingia águas mais escuras e profundas em sua vagarosa descida, os animais ao redor foram ficando cada vez mais estranhos, maiores e deformados.



Alguns peixes pareciam não ter olhos, outros tinham bocarras enormes onde outros animais fizeram morada. Ao redor da Batisfera, animais com as mais diversas formas e cores desfilavam, desfraldando uma variabilidade biológica muito maior do que eu poderia esperar encontrar em qualquer lugar.

Muitas das criaturas pareciam misturas de vertebrados e invertebrados, como um bizarro polvo com nadadeiras e outras ainda mais estranhas. Como era possível que animais apresentassem características de linhas filogenéticas tão distantes? Era como se, naquele lugar, milhões de anos de evolução tivessem ocorrido paralelamente, de forma completamente alheia à que conhecemos.

E, quando eu achava que nenhuma criatura poderia me surpreender mais naquele lugar, foi uma espécie ordinária que me deu o maior dos sustos: um golfinho. Pois um grupo deles parece ter sido atraído pela presença da Batisfera e um deles nadou diretamente para mim, de forma que eu pude reconhecê-lo, pelas cicatrizes circulares no dorso, como o mesmo que avistei naquele longínquo primeiro dia de viagem. E, como naquele dia, ele me encarou por um longo tempo com um olhar profundo, quase humano, cheio de um significado desconhecido.

Mas o mergulho me reservava ainda uma última assombrosa descoberta, pois, quando o animal se afastou e a Batisfera chegou ao fundo do mar, avistei, a cerca de 200 metros, as ruínas de uma antiga cidade, com colunas em estilo grego em meio às quais cardumes nadavam de forma indiferente, e um grande templo com escadaria e portas duplas. E era de lá que vinha a luz que chegava até a superfície, iluminando um enorme raio à sua volta. Naquele ponto a luz era tão brilhante que não era possível determinar a extensão das construções.



Tive vontade de mover a Batisfera até as misteriosas ruínas, mas não tive qualquer treinamento para pilotá-la, os controles pareciam confusos e Jacques só concordou em ajudar-me após eu prometer que acionaria apenas o botão que sinalizava a subida da Batisfera, o que fiz após alguns minutos de contemplação.

De volta à Bluebell, relatei a Jacques minhas descobertas mas, no lugar de fascinar-se, ele parece ter ficado irritado com minha empolgação, sem entender como posso ficar tão animado enquanto era iminente que passássemos fome e sede.

Amanhã, pretendo tomar alguma providência em relação à água e à comida, mas esta noite sonharei com Atlantis.

11 de maio de 1934

O capitão Billy ainda não está suficientemente recuperado, de modo que Jacques assumiu o comando do navio interinamente e, com o auxílio da bússola solar improvisada pelo Sr. Johnson, nos levou adiante em um mar esverdeado e cada vez mais repleto de algas.

Aparentemente, singramos o Mar de Sargaços, batizado com esse nome graças à onipresença de algas da espécie Sargassum C. Agardah, embora estes seres sejam descritos como amarelados e os que vemos agora sejam de um tom verde-oliva.

Após algumas horas encontramos outra embarcação, naufragada. Só foi possível vê-la porque parte da proa ainda despontava fora da água, em meio às algas. Movidos pela curiosidade, o Sr. Johnson e eu entramos em um bote para examinar de perto o que sobrou do navio. Foi possível ver apenas um interessante trabalho artístico na proa, com um olho entalhado na madeira de cada lado. A nave parecia estar ali há meses, embora o estilo de construção da embarcação sugerisse algo muito mais antigo.



Antes de voltar, coletamos uma boa quantidade de alga ao redor do navio, por sugestão do Dr. Petrov, que tinha esperanças de que ela fosse de alguma forma comestível. Notei um micro ecossistema repleto de delicados peixes coloridos e pequenos crustáceos verdes, quase completamente camuflados em meio às algas. Me assegurei de coletar alguns desses também.

De volta ao Bluebell, coloquei os caranguejos em um recipiente com algas e, enquanto as manuseava, encontrei o que achei ser uma pequena pedra branca, mas que revelou-se uma estatueta entalhada em marfim. Ela tinha a forma de um jovem de cabelos cacheados com asas na cabeça, o que me fez pensar em Hermes, o mensageiro dos deuses do Olimpo. Mostrei aos meus companheiros e fui corrigido pelo Dr. Campbell, mais versado em mitologia grega que eu: tratava-se de Hypnos, o Sono, um dos daemons que interfere no espírito dos mortais. Suponho que fomos afortunados por não encontrar uma estatueta do seu irmão gêmeo, Thanatos, a Morte, pois não precisamos de mais mau agouro.



A estatueta tinha, na base, inscrições em grego deveras desgastadas, sendo possível ler apenas uma palavra: mar. O Dr. Campbell e o Sr. Johnson identificaram o artefato como sendo um antiguidade grega legítima, embora parecesse ter sido exposta ao mar por apenas alguns meses. Conjecturou-se ainda que a embarcação afundada guardava semelhanças com um Trirreme grego, e o Sr. Johnson queria vestir o escafandro e explorar os destroços, mas Jacques o dissuadiu com um discurso sobre como qualquer tempo desperdiçado nos coloca mais próximos de ficar sem mantimentos.

Provavelmente não seria sequer possível enxergar algo naquela água verde repleta de algas, que ocupavam cada vez mais a paisagem, como a vegetação de uma mata fechada, nos obrigando a singrar canais entre os agrupamentos maiores, até que terminamos por encalhar em um trecho particularmente denso de algas.

Trabalhamos por duas horas para libertar o navio, trabalho que era dificultado pelo fato de que sempre que arrancávamos as algas elas cresciam de volta e agarravam-se ao casco em uma velocidade impressionante, algo que eu nunca tinha observado em outra espécie. Mas, enquanto este naturalista sabe que o mar abriga uma biodiversidade ainda muito desconhecida pelo homem, meus companheiros mostraram-se mais impressionáveis. O Sr. Johnson e o Sr. Harry parecia acreditar que as estranhas algas "segurando" o navio eram parte da maré de má sorte que se abateu sobre a expedição, e que estamos fadados ao fracasso e à morte. Uma malfadada tentativa do Dr. Campbell de fazer um discurso motivador apenas reforçou a sensação geral de desespero.

Voltamos a navegar até avistarmos uma garrafa de vidro boiando, que recolhemos. Dentro dela havia um papel amarelado que trazia uma mensagem em alemão, que o Dr. Campbell felizmente compreende, embora tenha hesitado em traduzi-la. Percebendo que ele escondia algo, o Sr. Johnson irritou-se e ameaçou-o, e o doutor acabou resignando-se a explicar que a mensagem foi escrita por um homem desesperado, quase louco, que diz ter se perdido naquele mar de sargaços e não tinha mais esperanças de sair dele. Tentando localizar-se, o pobre diabo chegou a mapear as formações de algas em um raio de 300 quilômetros em um desenho no verso do papel.


A mensagem parece ter desanimado ainda mais meus companheiros, mas deu-me alguma esperança: o mapa poderia nos ajudar. E a sorte parecia estar voltando a soprar a nosso favor, pois encontramos outras mensagens em garrafas à deriva e algumas delas traziam o mapeamento de outras áreas, expandindo o mapa que já tínhamos. E, embora essas mensagens fossem repletas de relatos assustadores sobre criaturas marinhas misteriosas e palavras de desespero sobre esse local estranho onde o sol, as estrelas e o mar não parecem obedecer às lógicas conhecidas pelo homem, ela trazia também uma importante pista: um espaço no centro do mapa que parecia concentrar vários tipos de barcos, alguns inclusive que não pareciam ser deste mundo. Vários dos autores das mensagens parecem ter chegado à mesma conclusão: para sair dali, confiar nos instrumentos e no conhecimento humano não era suficiente, era preciso pedir direções para algo ou alguém que conhece esse "mundo", e este ponto do mapa era o local mais provável para encontrar essas informações.

Decidimos que o melhor a fazer era rumar para este local o mais rápido possível. Harry Johnson utilizou uma de suas telas para pintar uma mapa único, unindo todos os fragmentos que encontramos. Jacques conseguiu então determinar nossa localização e traçar uma rota entre os canais de sargaços até nosso destino. Mas isso terá que esperar até o dia seguinte, pois já é noite, a lua se esconde atrás das nuvens e não queremos encalhar o barco novamente.

Fizemos uma refeição triste e pobre, pois estamos racionando as provisões. Depois, antes de recolher-me, utilizei o rádio para tentar comunicar nossa situação a quem pudesse ouvir, mas escutei de volta apenas estática por vários minutos, até que, quando estava prestes a desistir, escutei música. A mesma que ouvi no nosso primeiro dia de viagem: a melodia que saía da caixa de música que meu avô me deu. Aquilo tranquilizou-me e, mais do que isso, revigorou meu espírito. Oras, completamos o quebra-cabeças do mapa, conseguimos nos localizar e amanhã partiremos em uma viagem de descobertas! Como se preocupar com algo trivial como comida diante disso? Estamos desbravando um novo mundo! Imagine as descobertas científicas que faremos!

Não sei se conseguirei dormir, pois mal posso esperar pelo dia seguinte.

10 de maio de 1934

        Uma discussão irrompeu entre a tripulação após o início da viagem, quando descobriu-se que parte da comida comprada em Freeport estava estragada. Apesar disso, aparentemente, temos o suficiente para o restante da viagem desde que não façamos nenhuma extravagância.

        Me comuniquei com o professor Beebe pelo rádio nesta manhã e ele reportou coisas incríveis. Diz ter tido vislumbres de uma fauna interessante nas partes mais fundas do mar onde ainda é possível enxergar. Segundo ele, havia peixes estranhos, possivelmente novas espécies. Ele está convencido de que há um mundo novo e desconhecido lá embaixo. E sua convicção parece se apoiar nos relatos da população local sobre estranhos animais marinhos que supostamente apareciam na superfície antigamente, como espécies semelhantes a águas-vivas mas diferentes de tudo que já vimos. O Dr. Beebe acredita que essas espécies podem ter migrado para as profundezas abissais. Sua ansiedade para a nossa chegada com a Batisfera só não supera a minha.




        À tarde fomos surpreendidos por uma súbita mudança no tempo. Primeiro, uma ventania que ameaçou levar tudo que não estava amarrado e, na sequência, uma tempestade que parecia decidida a afogar-nos, assustando até mesmo o experiente Capitão Billy, que iniciou uma série de procedimentos para salvaguardar o navio.

        O mar se agitava em ondas enormes que, eu temia, fossem tombar o navio. Para não ser jogado ao mar, amarrei-me ao mastro principal enquanto os demais passageiros tomaram providências semelhantes. A força da tormenta que nos atingiu foi tamanha que o mastro do traquete foi danificado, bem como partes da estrutura de velas do mastro principal que meu parco conhecimento náutico não me permite nomear.

        Mas ainda mais imprevisível que a ira da natureza é o coração dos homens, pois um calejado membro da tripulação, o Sr. Mike, foi tomado pelo terror e decidiu abandonar o navio sozinho em um bote salva-vidas, atacando e nocauteando o Sr. Jacques e o Capitão Billy na tentativa.

        Testemunhando o acontecido, cortei a corda que me atava ao mastro e parti em sua direção antes que ele concluísse seu intento, conseguindo apenas estabacar-me no convés sobre o Dr. Petrov, que havia caído segundos antes fazendo o mesmo. No fim, foram as palavras de conforto do persuasivo Dr. Campbell que acalmaram o homem do mar o suficiente para permanecer à bordo. 

        Instantes depois o navio inteiro tremeu quando os mastros acenderam-se como se estivéssemos em uma gaiola de Faraday, enquanto um som aterrador que parecia ser o próprio céu desabando sobre nossas cabeças ribombou no meu peito.

        Já havido lido sobre o Fogo de Sant'elmo - apesar de nenhum relato mencionar aquele som ou o tremor -  mas, ainda assim, aquele fenômeno com ares sobrenaturais me afetou sobremaneira que precisei de toda minha força de vontade para não desabar no chão abraçando as próprias pernas na frente dos meus companheiros de viagem, que não pareciam ter sentido nada mais que um susto.



        Este último e aterrorizante ato encerrou a tempestade, e então corremos para acudir o Capitão Billy e o Sr. Jacques, que receberam atendimento médico e recuperam-se bem. Depois, tratamos de verificar os estragos e consertar o que foi possível, embora os danos no mastro principal pareçam irremediáveis.

        Esse momento de trabalho focado e manual provavelmente acalmou meus ânimos o suficiente para lidar com as duas descobertas aterradoras que fizemos em seguida. A primeira, de que as bússolas presentes no navio não funcionavam mais, apontando direções aleatórias e sempre mudando. Relatos semelhantes já haviam sido ouvidos sobre embarcações que chegam próximas do triângulo das bermudas. Mas consolamo-nos no fato de que em poucos minutos seria noite e poderíamos nos localizar pela posição das estrelas no céu, como faziam os viajantes de antigamente, um conhecimento que os marinheiros modernos ainda retém, sabiamente.

        Porém, quando a noite caiu e o brilho das estrelas passou a iluminar o céu, fizemos a segunda terrível descoberta, percebendo, para o nosso completo espanto, que não reconhecíamos nenhuma das constelações no firmamento.

        Como isso é possível? A tempestade não pode ter nos tirado da rota mais que algumas milhas, que dirá nos mandado para uma parte do planeta que fica sob outro céu! Então onde diabos estamos?!

Quando decidimos nos recolher e descansar, Mike ainda estava agitado, mas agora sua preocupação era nosso estoque de comida, que diminui rapidamente. Ele ainda mostra sinais de instabilidade emocional, o que me preocupa ainda mais. Acho prudente mantê-lo sob cautelosa vigilância, afinal, ele atacou dois membros da tripulação, tendo machucado seriamente o capitão Billy.

Estabeleci turnos de vigília com o Dr. Petrov e ficarei acordado mais algumas horas até que ele acorde e e eu possa ir dormir. Mantenho uma pequena faca no bolso do casaco por precaução.

9 de maio de 1934

     Após dois dias sem incidentes, chegamos a Freeport e estamos oficialmente nas Bahamas! Passaremos a noite atracados e partiremos pela manhã rumo a Nonsuch Island em Bermuda, onde o professor Beebe nos aguarda.

          A expectativa é de tempo bom e uma viagem tranquila.
 


7 de maio de 1934



    
    Deixamos Kingsport às 08h de um dia claro e limpo, à bordo de um Bermuda Rig chamado Bluebell. A tripulação é composta pelo simpático capitão Billy Hanrahan; Mike Shea, um sujeito grande e com cara de poucos amigos; e o silencioso francês Jacques Dupont.

        O grupo de passageiros é ainda mais pitoresco, contando com um historiador, o Dr. Ulysses Campbell; um médico russo, o Dr. Yuri Petrov; e um artista, Harry Johnson. Não exatamente a companhia que eu esperava encontrar nessa expedição científica financiada pela universidade.

        É claro que a primeira coisa que fiz quando embarquei foi ir até o porão e inspecionar a maravilhosa invenção de Otis Barton, a Batisfera, uma espécie de cápsula de aço que permite a exploração das profundezas do mar. Considero-me um afortunado por ser um orientado do Dr. William Beebe justo quando ele fará o mergulho inaugural da máquina. Quem sabe eu mesmo terei a oportunidade de levá-la para um passeio? Ponho-me fervil só de imaginar o que eu poderia relatar neste diário caso isso ocorresse!


Thomas Block - 5/7/34


        Após retornar ao convés passei algumas horas prazerosas apreciando a paisagem e o balanço da embarcação - o mar sempre teve um efeito revigorante em mim - até que avistei um gracioso grupo de golfinhos.

       Eles nadavam em fila, paralelos ao barco, em uma simetria impressionante. Nos acompanharam por metade de uma hora, o que achei deveras peculiar. Não é incomum que essa espécie - curiosa e inteligente - se aproxime das embarcações, mas o normal é que percam o interesse rapidamente.

        A estranheza do comportamento dos animais instigou a verve investigativa deste cientista, e solicitei ao capitão uma aproximação. Assim que chegamos perto o suficiente, um dos golfinhos saiu da formação e aproximou-se ainda mais, tornando possível ver que o animal tinha feridas estranhas no dorso: uma série de círculos perfeitos de diferentes tamanhos. Não me ocorre o que poderia ter causado os ferimentos. Certamente não outro animal.

       Ainda mais estranho foi o fato de que, quando olhei nos olhos do golfinho, comecei a ouvir música. Uma melodia que reconheci imediatamente, pois era a mesma que saía da caixinha de música que meu avô me deu quando eu era criança, na qual eu dava corda sempre que tinha dificuldade para dormir. De repente foi como se eu voltasse a ser um menino, sem preocupações ou obrigação alguma. Senti-me calmo e relaxado enquanto olhava nos olhos negros e profundos daquele animal.

      Não sei dizer quantos segundos ou minutos se passaram até que ele mergulhasse e se afastasse com o restante do grupo, mas assim que o fez a música parou. Perguntei, mas ninguém mais parece ter escutado a melodia. Como se tivesse sido tocada em um instrumento invisível e apenas para meus ouvidos! Não faz sentido, é claro, mas não insisti no assunto. Suponho que, se não foi algum tipo de troça dos meus companheiros, a experiência provavelmente foi causada pelos meus ânimos exacerbados devido à excitação da viagem, as possíveis descobertas que farei e o ambiente marinho que me lembra meu avô, um antigo lobo-do-mar.