11 de maio de 1934

O capitão Billy ainda não está suficientemente recuperado, de modo que Jacques assumiu o comando do navio interinamente e, com o auxílio da bússola solar improvisada pelo Sr. Johnson, nos levou adiante em um mar esverdeado e cada vez mais repleto de algas.

Aparentemente, singramos o Mar de Sargaços, batizado com esse nome graças à onipresença de algas da espécie Sargassum C. Agardah, embora estes seres sejam descritos como amarelados e os que vemos agora sejam de um tom verde-oliva.

Após algumas horas encontramos outra embarcação, naufragada. Só foi possível vê-la porque parte da proa ainda despontava fora da água, em meio às algas. Movidos pela curiosidade, o Sr. Johnson e eu entramos em um bote para examinar de perto o que sobrou do navio. Foi possível ver apenas um interessante trabalho artístico na proa, com um olho entalhado na madeira de cada lado. A nave parecia estar ali há meses, embora o estilo de construção da embarcação sugerisse algo muito mais antigo.



Antes de voltar, coletamos uma boa quantidade de alga ao redor do navio, por sugestão do Dr. Petrov, que tinha esperanças de que ela fosse de alguma forma comestível. Notei um micro ecossistema repleto de delicados peixes coloridos e pequenos crustáceos verdes, quase completamente camuflados em meio às algas. Me assegurei de coletar alguns desses também.

De volta ao Bluebell, coloquei os caranguejos em um recipiente com algas e, enquanto as manuseava, encontrei o que achei ser uma pequena pedra branca, mas que revelou-se uma estatueta entalhada em marfim. Ela tinha a forma de um jovem de cabelos cacheados com asas na cabeça, o que me fez pensar em Hermes, o mensageiro dos deuses do Olimpo. Mostrei aos meus companheiros e fui corrigido pelo Dr. Campbell, mais versado em mitologia grega que eu: tratava-se de Hypnos, o Sono, um dos daemons que interfere no espírito dos mortais. Suponho que fomos afortunados por não encontrar uma estatueta do seu irmão gêmeo, Thanatos, a Morte, pois não precisamos de mais mau agouro.



A estatueta tinha, na base, inscrições em grego deveras desgastadas, sendo possível ler apenas uma palavra: mar. O Dr. Campbell e o Sr. Johnson identificaram o artefato como sendo um antiguidade grega legítima, embora parecesse ter sido exposta ao mar por apenas alguns meses. Conjecturou-se ainda que a embarcação afundada guardava semelhanças com um Trirreme grego, e o Sr. Johnson queria vestir o escafandro e explorar os destroços, mas Jacques o dissuadiu com um discurso sobre como qualquer tempo desperdiçado nos coloca mais próximos de ficar sem mantimentos.

Provavelmente não seria sequer possível enxergar algo naquela água verde repleta de algas, que ocupavam cada vez mais a paisagem, como a vegetação de uma mata fechada, nos obrigando a singrar canais entre os agrupamentos maiores, até que terminamos por encalhar em um trecho particularmente denso de algas.

Trabalhamos por duas horas para libertar o navio, trabalho que era dificultado pelo fato de que sempre que arrancávamos as algas elas cresciam de volta e agarravam-se ao casco em uma velocidade impressionante, algo que eu nunca tinha observado em outra espécie. Mas, enquanto este naturalista sabe que o mar abriga uma biodiversidade ainda muito desconhecida pelo homem, meus companheiros mostraram-se mais impressionáveis. O Sr. Johnson e o Sr. Harry parecia acreditar que as estranhas algas "segurando" o navio eram parte da maré de má sorte que se abateu sobre a expedição, e que estamos fadados ao fracasso e à morte. Uma malfadada tentativa do Dr. Campbell de fazer um discurso motivador apenas reforçou a sensação geral de desespero.

Voltamos a navegar até avistarmos uma garrafa de vidro boiando, que recolhemos. Dentro dela havia um papel amarelado que trazia uma mensagem em alemão, que o Dr. Campbell felizmente compreende, embora tenha hesitado em traduzi-la. Percebendo que ele escondia algo, o Sr. Johnson irritou-se e ameaçou-o, e o doutor acabou resignando-se a explicar que a mensagem foi escrita por um homem desesperado, quase louco, que diz ter se perdido naquele mar de sargaços e não tinha mais esperanças de sair dele. Tentando localizar-se, o pobre diabo chegou a mapear as formações de algas em um raio de 300 quilômetros em um desenho no verso do papel.


A mensagem parece ter desanimado ainda mais meus companheiros, mas deu-me alguma esperança: o mapa poderia nos ajudar. E a sorte parecia estar voltando a soprar a nosso favor, pois encontramos outras mensagens em garrafas à deriva e algumas delas traziam o mapeamento de outras áreas, expandindo o mapa que já tínhamos. E, embora essas mensagens fossem repletas de relatos assustadores sobre criaturas marinhas misteriosas e palavras de desespero sobre esse local estranho onde o sol, as estrelas e o mar não parecem obedecer às lógicas conhecidas pelo homem, ela trazia também uma importante pista: um espaço no centro do mapa que parecia concentrar vários tipos de barcos, alguns inclusive que não pareciam ser deste mundo. Vários dos autores das mensagens parecem ter chegado à mesma conclusão: para sair dali, confiar nos instrumentos e no conhecimento humano não era suficiente, era preciso pedir direções para algo ou alguém que conhece esse "mundo", e este ponto do mapa era o local mais provável para encontrar essas informações.

Decidimos que o melhor a fazer era rumar para este local o mais rápido possível. Harry Johnson utilizou uma de suas telas para pintar uma mapa único, unindo todos os fragmentos que encontramos. Jacques conseguiu então determinar nossa localização e traçar uma rota entre os canais de sargaços até nosso destino. Mas isso terá que esperar até o dia seguinte, pois já é noite, a lua se esconde atrás das nuvens e não queremos encalhar o barco novamente.

Fizemos uma refeição triste e pobre, pois estamos racionando as provisões. Depois, antes de recolher-me, utilizei o rádio para tentar comunicar nossa situação a quem pudesse ouvir, mas escutei de volta apenas estática por vários minutos, até que, quando estava prestes a desistir, escutei música. A mesma que ouvi no nosso primeiro dia de viagem: a melodia que saía da caixa de música que meu avô me deu. Aquilo tranquilizou-me e, mais do que isso, revigorou meu espírito. Oras, completamos o quebra-cabeças do mapa, conseguimos nos localizar e amanhã partiremos em uma viagem de descobertas! Como se preocupar com algo trivial como comida diante disso? Estamos desbravando um novo mundo! Imagine as descobertas científicas que faremos!

Não sei se conseguirei dormir, pois mal posso esperar pelo dia seguinte.