Uma discussão irrompeu entre a tripulação após o início da viagem, quando descobriu-se que parte da comida comprada em Freeport estava estragada. Apesar disso, aparentemente, temos o suficiente para o restante da viagem desde que não façamos nenhuma extravagância.
Me comuniquei com o professor Beebe pelo rádio nesta manhã e ele reportou coisas incríveis. Diz ter tido vislumbres de uma fauna interessante nas partes mais fundas do mar onde ainda é possível enxergar. Segundo ele, havia peixes estranhos, possivelmente novas espécies. Ele está convencido de que há um mundo novo e desconhecido lá embaixo. E sua convicção parece se apoiar nos relatos da população local sobre estranhos animais marinhos que supostamente apareciam na superfície antigamente, como espécies semelhantes a águas-vivas mas diferentes de tudo que já vimos. O Dr. Beebe acredita que essas espécies podem ter migrado para as profundezas abissais. Sua ansiedade para a nossa chegada com a Batisfera só não supera a minha.
À tarde fomos surpreendidos por uma súbita mudança no tempo. Primeiro, uma ventania que ameaçou levar tudo que não estava amarrado e, na sequência, uma tempestade que parecia decidida a afogar-nos, assustando até mesmo o experiente Capitão Billy, que iniciou uma série de procedimentos para salvaguardar o navio.
O mar se agitava em ondas enormes que, eu temia, fossem tombar o navio. Para não ser jogado ao mar, amarrei-me ao mastro principal enquanto os demais passageiros tomaram providências semelhantes. A força da tormenta que nos atingiu foi tamanha que o mastro do traquete foi danificado, bem como partes da estrutura de velas do mastro principal que meu parco conhecimento náutico não me permite nomear.
Mas ainda mais imprevisível que a ira da natureza é o coração dos homens, pois um calejado membro da tripulação, o Sr. Mike, foi tomado pelo terror e decidiu abandonar o navio sozinho em um bote salva-vidas, atacando e nocauteando o Sr. Jacques e o Capitão Billy na tentativa.
Testemunhando o acontecido, cortei a corda que me atava ao mastro e parti em sua direção antes que ele concluísse seu intento, conseguindo apenas estabacar-me no convés sobre o Dr. Petrov, que havia caído segundos antes fazendo o mesmo. No fim, foram as palavras de conforto do persuasivo Dr. Campbell que acalmaram o homem do mar o suficiente para permanecer à bordo.
Instantes depois o navio inteiro tremeu quando os mastros acenderam-se como se estivéssemos em uma gaiola de Faraday, enquanto um som aterrador que parecia ser o próprio céu desabando sobre nossas cabeças ribombou no meu peito.
Já havido lido sobre o Fogo de Sant'elmo - apesar de nenhum relato mencionar aquele som ou o tremor - mas, ainda assim, aquele fenômeno com ares sobrenaturais me afetou sobremaneira que precisei de toda minha força de vontade para não desabar no chão abraçando as próprias pernas na frente dos meus companheiros de viagem, que não pareciam ter sentido nada mais que um susto.
Este último e aterrorizante ato encerrou a tempestade, e então corremos para acudir o Capitão Billy e o Sr. Jacques, que receberam atendimento médico e recuperam-se bem. Depois, tratamos de verificar os estragos e consertar o que foi possível, embora os danos no mastro principal pareçam irremediáveis.
Esse momento de trabalho focado e manual provavelmente acalmou meus ânimos o suficiente para lidar com as duas descobertas aterradoras que fizemos em seguida. A primeira, de que as bússolas presentes no navio não funcionavam mais, apontando direções aleatórias e sempre mudando. Relatos semelhantes já haviam sido ouvidos sobre embarcações que chegam próximas do triângulo das bermudas. Mas consolamo-nos no fato de que em poucos minutos seria noite e poderíamos nos localizar pela posição das estrelas no céu, como faziam os viajantes de antigamente, um conhecimento que os marinheiros modernos ainda retém, sabiamente.
Porém, quando a noite caiu e o brilho das estrelas passou a iluminar o céu, fizemos a segunda terrível descoberta, percebendo, para o nosso completo espanto, que não reconhecíamos nenhuma das constelações no firmamento.
Como isso é possível? A tempestade não pode ter nos tirado da rota mais que algumas milhas, que dirá nos mandado para uma parte do planeta que fica sob outro céu! Então onde diabos estamos?!
Quando decidimos nos recolher e descansar, Mike ainda estava agitado, mas agora sua preocupação era nosso estoque de comida, que diminui rapidamente. Ele ainda mostra sinais de instabilidade emocional, o que me preocupa ainda mais. Acho prudente mantê-lo sob cautelosa vigilância, afinal, ele atacou dois membros da tripulação, tendo machucado seriamente o capitão Billy.
Estabeleci turnos de vigília com o Dr. Petrov e ficarei acordado mais algumas horas até que ele acorde e e eu possa ir dormir. Mantenho uma pequena faca no bolso do casaco por precaução.

