12 de maio de 1934

Navegamos durante quase todo o dia até chegarmos à região central indicada no nosso mapa do Mar de Sargaços, ou como quer que se chame este lugar. Sob a luz do crepúsculo ainda era possível avisar meia dúzia de embarcações de aspecto fantasmagórico nos canais entre os bancos de algas.

A isso seguiu-se um moroso debate sobre investigar ou não os navios, por qual começar caso o fizéssemos e a escassez de comida e água potável. Chateei-me com a indolência das decisões e o excesso de zelo. Oras, para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve! Todas as respostas sobre este terrível País das Maravilhas estavam à nossa frente, mas perdíamos tempo precioso de luz solar hesitando em frente à toca do coelho.

Depois do que pareceram horas, finalmente dividimo-nos em dois botes para investigar as embarcações mais próximas, conquanto o Dr. Petrov tenha preferido permanecer na Bluebell, receoso de deixar sozinha a instável tripulação (o capitão Billy padece de forte cefaleia e Mike parece aterrorizado pelo local em que estamos, recusando-se a deixar o porão).


Enquanto o Sr. Johnson remava na direção de um grande navio de cruzeiro, o Dr. Campbell e eu subimos à bordo de um estranho navio de guerra identificado como SMS Panther, equipado com metralhadoras montadas que pareciam mais sofisticadas do que as que vi em fotografias da Grande Guerra.

No convés, encontramos os cadáveres desfigurados por queimaduras de quatro soldados. Um deles usava um elegante uniforme preto, com um quepe de policial e uma braçadeira vermelha exibindo um símbolo que, se não me engano, é o do partido do chanceler alemão, Adolf Hitler. Lembro de ver uma bandeira com este símbolo no The New York Times no ano passado, em um elogioso artigo sobre o envio de anarquistas, socialistas e comunistas a campos de concentração após o incêndio do Reichstag.

Além de uma pistola Luger, o oficial nazista tinha consigo também um diário, onde ele relatou terríveis batalhas no Atlântico. Mas o que me surpreendeu foram as datas, todas posteriores a 1939. Um erro, ou algum tipo de código? Encontramos outros documentos explorando o interior do navio e, para minha total estupefação, todos traziam datas futuras. Esse fato, aliado ao aspecto estranho do navio, me fez aventar a absurda hipótese de que o encouraçado alemão tenha de alguma forma viajado no tempo até encalhar neste maldito ponto do triângulo das Bermudas.

E se isso for verdade, o que dizer dos relatos de uma segunda guerra em escala global, lutada com armas de potencial destrutivo nunca antes visto? Meu Deus, a primeira quase nos destruiu e a segunda parece muitíssimo mais letal. Se é isso que o futuro nos reserva, será que quero mesmo voltar para casa?



Ainda estava absorto nesse pensamento deprimente enquanto remávamos de volta à Bluebell e avistamos a luz de uma fogueira na margem da floresta de algas ao redor da qual os navios abandonados estão dispostos. Este local parece formado pelos destroços de dúzias de embarcações dominadas pelas algas, que se envolveram na estrutura de tal maneira que é impossível identificar onde um navio termina e outro começa. Elas sobem pelos vários mastros como trepadeiras, dando ao local o aspecto de uma verdadeira floresta.

Quase no momento em que avistei a fogueira, comecei a escutar a melodia da minha antiga caixinha de música, afastando os pensamentos sombrios. Aproximando-nos, vimos um homem e uma mulher iluminados pelo fogo. Eles vestiam estranhas túnicas brancas sobre calças curtas e assavam um enorme peixe. Acenei e gritei uma saudação, ao que eles responderam amigavelmente.

O homem tinha cerca de 50 anos, cabelos grisalhos e feições que me eram, de alguma forma, familiares. A mulher tinha longos cabelos ruivos. Pareciam plenamente saudáveis e suas maneiras eram relaxadas e satisfeitas, nada parecidas com o que se esperaria de náufragos sobrevivendo em um local tão ermo. Eram ambos americanos, pelo que nos contaram, e tinham chegado ali há muito tempo. Perguntei se havia uma maneira de sair do Mar de Sargaços e eles nos desencorajaram, convidando-nos a ficar, prometendo que aquele local oferecia um contentamento pleno. Confesso que fiquei tentado, lembrando da guerra que nos aguardava em casa e vendo o quanto eles pareciam felizes naquele lugar isolado.

Eles falaram também de outros habitantes do local, os Kalimanos, que parecem ser o povo nativo. Eles supostamente detém grande conhecimento e, se alguém sabe como este lugar funciona, são eles. Fomos informados de que os encontraríamos em uma das embarcações menores, a que parecia ter uma grande torre no centro. O Dr. Campbell teve a precaução de perguntar se esses Kalimanos não eram perigosos, pois encontramos cadáveres no navio, o que eles negaram, explicando que os mortos eram vítimas da guerra lá fora. Agradecemos pela informação e nos despedimos.

De volta à Bluebell, ouvimos o relato do Sr. Johnson sobre o navio de cruzeiro da era vitoriana, onde ele encontrou mais mortos, desta vez praticamente fossilizados e infestados de algas, um mapa de estrelas desenhado de forma apressada e uma arma bastante oxidada pela exposição ao sal marinho, como a Luger que encontrei. O Dr. Campbell fez reparos nas duas, e entreguei a minha ao Dr. Petrov, que disse ter experiência no manuseio. Depois, como já estava escuro demais para navegar a Bluebell e tarde demais para bater à porta de desconhecidos, decidimos esperar pelo dia seguinte.

Com os nervos abalados pelos acontecimentos recentes, o Dr. Petrov e o Sr. Johnson travaram conversa com o Dr. Campbell, que se tornou uma espécie de alienista do desaventuroso grupo. Mesmo estando próximo, pouca atenção dei às suas palavras de conforto, porque notei uma interessante luminosidade que oscilava entre amarelada e esverdeada na água ao nosso redor, se estendendo em um raio de mais de 200 metros. Conjecturei sobre a presença de animais marinhos dotados de bioluminescência, semelhante à que já foi registrada em plânctons e algumas espécies de algas.

Muito intrigado, decidi que era hora de estrear a fabulosa Batisfera que a Bluebell esteve carregando em seu ventre todo esse tempo. Enquanto os demais recolhiam-se para descansar, desci ao porão e encontrei Jacques, a quem pedi auxílio na empreitada, o que demandou uma boa dose de convencimento.

Finalmente, tremendo de expectativa, acomodei-me no exíguo interior da máquina e Jacques a fez submergir no mar. Imediatamente, os faróis electricos da Batisfera iluminaram centenas de peixes nadando próximos à superfície, espécies comuns no Atlântico. Mas, à medida em que a esfera atingia águas mais escuras e profundas em sua vagarosa descida, os animais ao redor foram ficando cada vez mais estranhos, maiores e deformados.



Alguns peixes pareciam não ter olhos, outros tinham bocarras enormes onde outros animais fizeram morada. Ao redor da Batisfera, animais com as mais diversas formas e cores desfilavam, desfraldando uma variabilidade biológica muito maior do que eu poderia esperar encontrar em qualquer lugar.

Muitas das criaturas pareciam misturas de vertebrados e invertebrados, como um bizarro polvo com nadadeiras e outras ainda mais estranhas. Como era possível que animais apresentassem características de linhas filogenéticas tão distantes? Era como se, naquele lugar, milhões de anos de evolução tivessem ocorrido paralelamente, de forma completamente alheia à que conhecemos.

E, quando eu achava que nenhuma criatura poderia me surpreender mais naquele lugar, foi uma espécie ordinária que me deu o maior dos sustos: um golfinho. Pois um grupo deles parece ter sido atraído pela presença da Batisfera e um deles nadou diretamente para mim, de forma que eu pude reconhecê-lo, pelas cicatrizes circulares no dorso, como o mesmo que avistei naquele longínquo primeiro dia de viagem. E, como naquele dia, ele me encarou por um longo tempo com um olhar profundo, quase humano, cheio de um significado desconhecido.

Mas o mergulho me reservava ainda uma última assombrosa descoberta, pois, quando o animal se afastou e a Batisfera chegou ao fundo do mar, avistei, a cerca de 200 metros, as ruínas de uma antiga cidade, com colunas em estilo grego em meio às quais cardumes nadavam de forma indiferente, e um grande templo com escadaria e portas duplas. E era de lá que vinha a luz que chegava até a superfície, iluminando um enorme raio à sua volta. Naquele ponto a luz era tão brilhante que não era possível determinar a extensão das construções.



Tive vontade de mover a Batisfera até as misteriosas ruínas, mas não tive qualquer treinamento para pilotá-la, os controles pareciam confusos e Jacques só concordou em ajudar-me após eu prometer que acionaria apenas o botão que sinalizava a subida da Batisfera, o que fiz após alguns minutos de contemplação.

De volta à Bluebell, relatei a Jacques minhas descobertas mas, no lugar de fascinar-se, ele parece ter ficado irritado com minha empolgação, sem entender como posso ficar tão animado enquanto era iminente que passássemos fome e sede.

Amanhã, pretendo tomar alguma providência em relação à água e à comida, mas esta noite sonharei com Atlantis.