Dei algumas ideias ao habilidoso Harry Johnson e ele construiu, na cozinha, uma engenhoca para condensar o vapor da água do mar fervida, provendo água livre de sal e resolvendo ao menos uma das preocupações de Jacques.
Depois, contei aos meus companheiros tudo que vi com a Batisfera, incluindo a fascinante cidade submersa, na esperança de que eles concordassem em navegar naquela direção para um novo mergulho exploratório, mas eles fizeram pouco caso, preferindo procurar os Kalimanos.
Navegamos então em direção à estranha galé onde supostamente encontraríamos os misteriosos Kalimanos. No caminho, Harry decidiu explorar outro navio de cruzeiro próximo e partiu em um barco a remo, enquanto outro levava a mim, o Dr. Petrov e o Dr. Ulysses até onde a galé estava ancorada, uma "ilha" formada por algas emaranhadas e solidificadas.
Enquanto remávamos até lá, notamos três figuras andando na ilha, em direção a um enorme e avariado navio negro cujo casco parece, estranhamente, não ser feito de madeira, mas de algum mineral desconhecido.
Duas delas usavam vestes brancas semelhantes às que os desconhecidos do dia anterior vestiam e, entre eles, conduziam uma pessoa com vestes escuras que parecia magra e cansada e andava como se estivesse em transe. A isso o Dr. Petrov teve uma estranha reação, relatando que as figuras de branco não pareciam humanas, tendo bocas largas, olhos amarelos e pele esverdeada. Mas ao Dr. Campbell e a mim elas pareciam perfeitamente normais, embora não fosse possível discernir bem suas feições daquela distância.
Cogitamos abordar as pessoas, dado que o Dr. Campbell estava ansioso para travar contato com elas, mas o Dr. Petrov mostrou-se decididamente contra, então concordamos em rumar diretamente para a galé, por falta de palavra melhor, pois aquele talvez seja o mais estranho dos barcos que encontramos até ali.
Ele era muito alto e parecia feito de uma madeira escura, mas não era possível ver nenhuma divisão entre uma tábua e outra, como se a embarcação inteira tivesse sido entalhada em um único e monumental bloco de madeira. Havia uma cabine iluminada que mais parecia um alto edifício, com o mastro despontando no topo, além de uma torre muito alta, onde era possível ver mais uma figura de branco, que o Dr. Petrov também enxergava com um "homem-peixe".
Ele não parecia ter nos avistado ainda e decidimos chegar de forma discreta. O Dr. Petrov juntou um grande monte de algas para cobrir-nos e ao barco, e remamos cautelosamente em direção à porção da ilha que se conectava à galé. Mas, ao chegar no local, o Dr. Campbell avistou duas pessoas e decidiu se dirigir a elas, deixando o Dr. Petrov e eu escondidos no barco.
Sem poder ouvir o que conversavam, observei de longe até que um deles agarrou o Dr. Campell, que gritou para que fugíssemos, enquanto o outro apontava para ele algum tipo de objeto metálico que, à primeira vista, achei ser um castiçal. Sem titubear, pulei do barco e corri em sua direção, gritando para que deixassem meu colega em paz.
Mas, para meu completo horror, o que eu acreditei serem duas pessoas eram na verdade criaturas bestiais, com bocas largas e olhos esbugalhados como o de peixes ou sapos, além de uma pele escamosa e mãos - ou patas? - com membranas. E o que parecia ser um castiçal era um tipo de cimitarra, que a criatura apontou para mim.
Injetado de adrenalina, meu instinto de luta ou fuga aflorou e decidi lutar, acertando um jab no monstro, que reagiu com a rapidez de uma cobra pisada na grama e acertou-me com o sabre, cortando-me a carne dolorosamente. Segundos depois, a criatura caiu para trás com um buraco sangrento onde antes havia um olho, graças a um tiro certeiro do Dr. Petrov, que se aproximou sem ser visto.
Sem perder tempo, ataquei o outro Kalimano, libertando o Dr. Campbell, que fugiu desabalado. Mas outros três já haviam surgindo, certamente alertados pelo som do tiro, e o Dr. Petrov e eu corremos de volta ao barco a remo. Sem ver sinal do Dr. Campbell, embarcamos e remamos sofregamente à toda velocidade até retornar à Bluebell.
Após explicar a ausência do Dr. Campbell ao resto da tripulação, notamos a presença de um desconhecido, que Harry Johnson nos apresentou como "Próspero", o líder dos passageiros do grande navio de cruzeiro que ele decidiu explorar. Segundo ele, o grupo numeroso está neste local há mais tempo que nós e já teve uma série de enfrentamentos com as criaturas que nos atacaram.
Mas, enquanto eles barricam-se no navio, tentando apenas sobreviver, Próspero é da opinião de que é preciso procurar uma maneira de sair daquele local, o que levou a um desentendimento entre ele e o restante do grupo, fazendo com que ele os abandonasse a partisse em uma exploração solitária.
A busca certamente rendeu frutos, pois, com as informações que reuniu, ele concluiu que a única maneira de sair dali é através da mesma tempestade que quase nos naufragou e que foi marcada pelo fenômeno do fogo de Santelmo. Ele acredita que, em algum lugar daquele maldito Mar de Sargaços, há uma área que reúne as condições climáticas ideais para essa tempestade, mas ainda não foi capaz de localizá-la, principalmente sem um barco navegável.
Harry nos contou que encontrou Próspero na floresta de algas, aparentando estar meio louco, e que ele só concordou em nos ajudar com suas informações em troca de embarcar na Bluebell e sair em busca da tempestade, e de não ser levado de volta para o navio de cruzeiro, que pediu a ajuda de Harry para encontrá-lo, prometendo mantimentos em troca.
Mais tarde, quando os outros preparavam-se para dormir, vi Próspero observando a luz na água e decidi fazer um novo mergulho com a Batisfera, para encontrar a fonte da luz. Mas foi preciso barganhar um alto preço em troca da ajuda do capitão Billy e de Jacques na empreitada, que só aceitei pagar porque senti que encontraria respostas muito necessárias na cidade submersa.
Próspero mergulhou comigo na Batisfera, ficando igualmente fascinado e horrorizado pelas espécies que nadavam à nossa volta enquanto à esfera descia. Quando finalmente chegamos às ruínas, vesti um pesado escafandro e saí da Batisfera, dirigindo-me ao templo, de onde a forte luz amarelo-esverdeada emanava.
Subi a escadaria com a estranha sensação de não ser apenas um explorador marítimo, mas um viajante do tempo, pisando degraus assentados por construtores de uma civilização antiga e utilizados por sabe-se lá quais tipos de peregrinos. Mas, ao me aproximar das gigantescas portas duplas, percebi que eu não era o primeiro homem da era moderna a chegar ali.
Outro escafandro, aparentemente vazio, estava de pé entre as portas, como se o homem dentro dele tivesse desaparecido no instante em que entrava no templo. Temendo o mesmo destino, contrariei a enorme vontade de ver o interior do edifício e dei meia volta, dirigindo-me a uma grande construção abobada.
Lá, sob a alta cúpula, vi símbolos de uma língua desconhecida, constelações que pareciam corresponder ao céu que víamos à noite e um detalhado mapa do mar de sargaços. Examinei minunciosamente cada registro, concentrando-me ao máximo para gravar tudo na memória, até ver uma silhueta contra a luz nas portas do templo.
A figura veio em minha direção e escondi-me atrás de uma das colunas em estilo grego da construção e, quando ela se aproximou, vi, em uma fração de segundos, o rosto de um jovem com pequenas asas atrás das orelhas, que depois pareceu ser um peixe, e depois "absorveu" toda a luz que vinha do templo e tornou-se ele próprio a fonte da luz.
Esgueirei-me até a saída atrás de mim e, com toda a furtividade permitida pelo pesado escafandro, contornei um velho submarino enferrujado da grande guerra - de onde o escafandro vazio deve ter saído -, e voltei para a Batisfera, onde Próspero apertava alucinadamente todos os botões, tentando fazê-la emergir, aterrorizado como estava pelo ser de luz. O desgraçado me deixaria para trás!
Isso certamente diminuiu minha culpa na traição que se seguiu, quando subimos à bordo da Blubell e o capitão Billy e Jacques cobraram seu preço na barganha, amarrando próspero como um salame, a ser entregue no navio de cruzeiro em troca de comida.
Mesmo tendo encontrado Sono em pessoa, será difícil dormir, não apenas pelo peso na consciência, mas pelos gritos e maldições que o homem ainda profere, amarrado no porão.


