O grupo de passageiros é ainda mais pitoresco, contando com um historiador, o Dr. Ulysses Campbell; um médico russo, o Dr. Yuri Petrov; e um artista, Harry Johnson. Não exatamente a companhia que eu esperava encontrar nessa expedição científica financiada pela universidade.
É claro que a primeira coisa que fiz quando embarquei foi ir até o porão e inspecionar a maravilhosa invenção de Otis Barton, a Batisfera, uma espécie de cápsula de aço que permite a exploração das profundezas do mar. Considero-me um afortunado por ser um orientado do Dr. William Beebe justo quando ele fará o mergulho inaugural da máquina. Quem sabe eu mesmo terei a oportunidade de levá-la para um passeio? Ponho-me fervil só de imaginar o que eu poderia relatar neste diário caso isso ocorresse!
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| Thomas Block - 5/7/34 |
Após retornar ao convés passei algumas horas prazerosas apreciando a paisagem e o balanço da embarcação - o mar sempre teve um efeito revigorante em mim - até que avistei um gracioso grupo de golfinhos.
Eles nadavam em fila, paralelos ao barco, em uma simetria impressionante. Nos acompanharam por metade de uma hora, o que achei deveras peculiar. Não é incomum que essa espécie - curiosa e inteligente - se aproxime das embarcações, mas o normal é que percam o interesse rapidamente.
A estranheza do comportamento dos animais instigou a verve investigativa deste cientista, e solicitei ao capitão uma aproximação. Assim que chegamos perto o suficiente, um dos golfinhos saiu da formação e aproximou-se ainda mais, tornando possível ver que o animal tinha feridas estranhas no dorso: uma série de círculos perfeitos de diferentes tamanhos. Não me ocorre o que poderia ter causado os ferimentos. Certamente não outro animal.
Ainda mais estranho foi o fato de que, quando olhei nos olhos do golfinho, comecei a ouvir música. Uma melodia que reconheci imediatamente, pois era a mesma que saía da caixinha de música que meu avô me deu quando eu era criança, na qual eu dava corda sempre que tinha dificuldade para dormir. De repente foi como se eu voltasse a ser um menino, sem preocupações ou obrigação alguma. Senti-me calmo e relaxado enquanto olhava nos olhos negros e profundos daquele animal.
Não sei dizer quantos segundos ou minutos se passaram até que ele mergulhasse e se afastasse com o restante do grupo, mas assim que o fez a música parou. Perguntei, mas ninguém mais parece ter escutado a melodia. Como se tivesse sido tocada em um instrumento invisível e apenas para meus ouvidos! Não faz sentido, é claro, mas não insisti no assunto. Suponho que, se não foi algum tipo de troça dos meus companheiros, a experiência provavelmente foi causada pelos meus ânimos exacerbados devido à excitação da viagem, as possíveis descobertas que farei e o ambiente marinho que me lembra meu avô, um antigo lobo-do-mar.

